Calerdoses... ?

Março 31, 2005


1 Caneta+1 Folha em branco+1000 idéias+20 linhas+15 minutos = 551.755



É impressionante o que uma breve viagem de ônibus é capaz de revelar. São tantas realidades, o Rio é o mundo de submundos, é um estado tão completo a ponto de conter uma cidade que almeja ser estado.

Em meu caminho, subúrbio-capital, fotografei realidades diversas. No início, a janela do lotação observou, com a minha batuta, crianças brincando nas ruas, casas e mais casas enfeitando a paisagem familiar de um local suburbanizado crescendo junto com os moradores que na manhã de todo dia vão a padaria do Seu João comprar pão fresco embrulhado em notícias recentes. Viver na suburbanidade é esbarrar em gente conhecida caminhando no silêncio da rua desfeito pelo latido dos cachorros esquecidos na calçada. Não gosto do crescimento da comunidade canina pela rua, mas no subúrbio é assim: as pessoas ainda são as figuras principais em cada lar.

O tempo foi passando e com ele as casas que aos poucos foram substituídas por muitos prédios formando fileiras verticais postas especulartivamente no espaço. Cadê o vizinho? Já não consigo contar quarteirões nem situo a vizinhança. Como pode haver bairro sem rua e sem casa. Tentei refletir sobre essa díspar realidade, mas a falta do silêncio me calou. A pausa silenciosa era o milésimo intervalo entre o roncar dos motores automobilísticos. Nessa hora senti falta de algum santo latido quebrando o silêncio. Na capital, não encontrei um cão guardando as esquinas, estão todas repletas de "Pet Shops". Na modernidade é assim: as casas estão cheias de novas espécies de valores.

Desci do ônibus, sem conseguir notar qual era a cara dos moradores. Onde será que estão as pessoas daqui? Talvez estejam noutro ônibus, noutro tipo de casa, num apartamento, num departamento ou num canto qualquer; vivendo uma vida qualquer ou uma vida de cão. Estão todos num mundo diverso que forma nosso universo chamado sociedade.


"há sempre um copo de mar para um homem navegar"
Jorge de Lima


Num belo navio
Passou meu desvio
Veio
Meio
Boiando
Chamando
Acenando
A cena
Que nunca farei
A fala
Que não falarei
O discurso afundou
Fundou-se o silêncio
Maremotos sortidos
Idéias em mortos sonidos
SORTE! Ainda estar abSORTA!
Sorte, poder extravasar minha última
G
O
T
A


Pouco me completa
Pouca coisa me completa

Coisa completamente pouca
Completa-me de pouca coisa

Só com o complemento do pouco
Sou coisa completa

Eu: Completamente a coisa
Eu: um pouco de tudo quanto é coisa





"que importa o sentido
se tudo vibra?"

Alice Ruiz"




O tato descreve algo além dos contornos
Distingue o frio do morno
Toca o veludo d'alma
Cobre os lábios de quem pede calma

O calo cala os desgastados segredos
Os sentidos, sem sentidos, transformam-se em dedos
Que se abrem pedindo pausa em decreto
Cerram-se sempre em silêncios secretos
Anelando qualquer orientação
Esticando-se em minha direção
Apontam a que não têm
o caminho que não vem
São dezenas embaralhando a visão
Apenas um rasgando vários nãos

E as mãos?
Fatigadas, escrevem mais que poemas
Recebem pulsando as algemas
Censurando o que ainda é pecado
Dedilhando esse mundo errado
Indicando muitas fraquezas
Arranhando poucas certezas

Direito e esquerdo ainda me com(fundem) e isso não é coincidência
Perdida sempre estarei na linha destinada em cada palma de consciência
Restou-me apenas um trêmulo sonido:
Meus dedos nervosos estalando na surdez d'ouvido



com TATOS*

Não escrevo!
Sobrescrevo!
Trilho sempre novos caminhos
Na estrada dos dias
meu andar nunca caminha sozinho
Sou peregrina
Com os pés amanheço ao som da lira
Sou bailarina
Com os dedos nas cordas ouço a palavra que gira

Não canço!
Danço!
Com passos de quem anda em círculos
Compassos circulando riscos
Com tatos subindo a altura
Contatos conduzindo a cintura


*foto: MÊu bem!!!!!!



O IRRESISTÍVEL


Às vezes é melhor nem pensar quando uma coisa não sai bem.

...Mas cadê que consigo tamanha estupidez?
Então resta-me pensar.
Para eu não ficar sozinha pensemos juntos, por favor:
Primeiro,
o baque da eleição torta para presidência da câmara (votos secretamente vendidos)
Depois,
o racha no PT com uma candidatura oficial e outra avulsa (ou vice versa).
Enfim,
o PT perdeu a câmara e o país perdeu o juízo.

"Sévérinô gânhô!!!!
UPA UPA BANGALÔ!...
ishi Maria, i agora?!
- Nós mônta nu jegue i chóra!
...snif snif snif... "

(Hoje não vim fazer versinho, mas esse até que veio a calhar)

Bem, (digo mal) Ele ganhou e nessa hora idiota (pensei pensei pensei), lembrei-me da Poliana e disse a mim mesma: Faz mal não, tem que ter algo de bom nessa cagada!!!
Então (pensei novamente) tentei esquecer a coitadinha da Poliana-boba-alegre (dona de uma teoria que só não foi por água baixo porque sua ignorância infantil não testou brincar de contente com politicalhas) e finalmente comecei a racionalizar essa situação escabrosa...
"Vamos ponderar calene! (pensei cá com meus botões): ...Aquela figura tacanha (Severino) vai trazer os holofotes da mídia para a tão desfocada política brasileira... EUREKA!!!! Meu Deus?! é isso, descobri!!!! será impossível não haver comoção total da população frente a tantos desvarios SEVERIANOS... isso isso isso!!! é agora que o povo entra na politica de vez!!!! uhú uhú uhú...."

...Mas nesse momento de exaltação (voltei a pensar), lembrei-me de um provérbio chinês que diz: "Espere o melhor, prepare-se para o pior e receba o que vier."
(Chinês? pera ái... agora apelei no meu pensar, né?, fui meter logo a China -COMUNISTA- nessa DEMOcracia). Pensei fundo nessa frase, parei de festejar minha EUREKA e fiquei comedida no meu otimismo poliânico... e quando meu intusiasmo começou a esvair-se... UFAAAA!!!!! vem a notícia: "Sevinho" (serve pra nada) não conseguiu aprovar o aumento de sua classe (1º classe)!. (Ahá!!! Não falei!!?? sou um pouco vidente!). Formaram-se imensas correntes de e-mails, o povo encharcou a câmara de protestos e vetou esse ralo.
Isso mesmo! dalí meu povo tupiniquim!. Minha gente participando da política!!!! Fiquei tão orgulhosa!! fiquei verde e amarela de emoção!!! alguém me belisque!!!! Isso só pode ser um sonho... Tô feliz!

...mas (caramba, outro 'mas'?! ah não!) eis que nessa ebulição digna de Policarpo surge o provérbio do tal chinesinho pessimista e: tcharam! o Severino (dono de um baita beliscão!, brasileiríssimo e genuinamente povão) vem com o famoso jeitinho brasileiro aumentando a verba dos gabinetes!!

Não gente... "arrego", por favor!!!! não dá mais pra pensar.. já virou tortura... São muitas emoções, muitos altos e baixos.. Brochei de política pra sempre, ai ai... logo agora que o povo estava indignado? podia rolar até cara pintada? Agora? logo agora? justo na hora em que o povo ia começar a falar, ele vem e toma uma atitude que não há quem o vete... é ele quem vota e a gente (engolindo esse sapo) arrota mais uma indigestão de politicalha. (não sei porque ainda acompanho política?)

Vamos combinar:
Severino é o terceiro homem na escala de substituição presidencial...
imaginem ISSO (Severino) depois de catástrofes sucessivas no poder??
já imaginaram?...
Na minha imagem veio a figura de outro cavalcante, do Tom Cavalcante, gritando na zorra total: Portêêêêrooooo!!!
É isso que o Brasil será: UMA ZORRA TOTAL, com um Severino autêntico de porteiro (o nome não nega a profissão).
Não tenho nada contra nomes (o meu também não é lá essas coisas), mas alguém sabe o nome da mulher do Severino?
Eu sei e digo pros felizardos companheiros de pensamento: AMÉLIA!!!!!!
Ai Que Saudades Da Amélia!!!!!!!!!!! só ela pra aguentar essa figura e só a gente pra segurar tanta amargura... ao ler estampado na camisa de seus correligionários
"Severino Cavalcante é presidente da Câmara, quem não agüentar que exploda"...


...blow! blow! blow! blow! blow! blow! blow! blow!...




*Vamos aproveitar nosso momento pensativo pra pensar um pouco mais!! que tal??



Política

Politicalha


A política afirma o espírito humano, educa os povos no conhecimento de si mesmos, desenvolve nos indivíduos a atividade, a coragem, a nobreza, a previsão, a energia; cria, apura, eleva o merecimento.

Não é esse jogo da intriga, da inveja e da incapacidade, a que entre nós se deu a alcunha de politicagem. Esta palavra não traduz ainda todo o desprezo do objeto significado. Não há dúvidas de que rima bem com criadagem e parolagem, afilhadagem e ladroagem. Mas não tem o mesmo vigor da expressão que os seus consoantes. Quem lhe dará o batismo adequado? Politiquice? Politiquismo? Politicaria? Politicalha? Neste último, sim, o sufixo pejorativo queima como um ferrete, e desperta ao ouvido uma consonância elucidativa.
Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam uma com a outra. Antes se negam, se excluem, se repulsam mutuamente.
A política é a arte de gerir o Estado, segundo princípios definidos, regras morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis. A politicalha é a indústria de explorar o benefício de interesses pessoais. Constitui a política uma função, ou o conjunto das funções do organismo nacional: é o exercício normal das forças de uma nação consciente e senhora de si mesma. A politicalha, pelo contrário, é o envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela contaminação de parasitas enexoráveis. A política é a higiene dos países moralmente sadios. A politicalha, a malária dos povos de moralidade estragada.


Barbosa, Rui



"Quem sabe ainda sou uma garotinha, esperando o ônibus da escola sozinha"


Nasci menina faladeira e perguntadeira. Era uma verdadeira matraqueira. As palavras saíam, com naturalidade e inocência, munidas da simplicidade contida em meu sorriso ignorante. Sempre sorri, sempre fui ignorante. A única diferença é o fato de que depois de crescida a ignorância perdeu o encanto.
Gostava tanto dos encantamentos. Fui criança no conto de fadas, bobinha, sempre contando meus contos. Adorava brincar. "imagem-ava" muitos cenários encenados com muita criatividade, sempre gostei de imaginar-me em todos os papéis... tantos que giravam suficientemente confusos sobre meus olhos miúdos que não acompanhavam, embora tentassem, esse emaranhado de folhas que me carregavam e num breve instante, transformavam-me numa secretária eficiente carimbando e assinando aquele peso de ofícios "importantes". Amava brincar de escritório... gostava de ser importante! por isso era, também, a mãe, da casinha, mandando em todos sempre decretando feliz meus enunciados urgentes. Desde esse tempo gosto da urgência! portanto ser a professora na brincadeira era questão de honra, vivia ali minha pressa intensamente. Ensinava tudo, antes mesmo de aprender. Ficava gastando giz e saliva recitando, como um oráculo, sabedoria enquanto percorria a imensa extensão de meu vistoso tablado.
Ah! Como gostava de altura! Queria o trono, a coroa, o castelo e, principalmente, ser a princesa pensativa na torre, olhando o mundo sempre linda linda linda!!!.

Hoje, sou meu eu do passado. Abastecida de lembranças e sons ecoados pela memória e pelo tempo. Estou no meio do rio, um pouco mais cascuda e descascada do rubor de minha pele outrora rosada. Se por acaso, nesse meu novo curso, encontrasse a tal "menina-calene" teria a imensa curiosidade em saber se ela um dia sonhou ser eu.
A resposta para essa pergunta, provavelmente, demoraria minutos de silêncio, horas de prosa e uns "talvezes" repetidos tantas vezes que a certeza desapareceria deixando meu dicionário órfão de suas convicções.
Sonho um dia poder falar com ela, manter um contato imediato, e desfazer alguns nós na garganta bebendo, num gole só, seu rémedio cicatrizante de todas as minhas dúvidas.... Será que meus erros levaram-me até um lugar seguro? Será que a esquina onde dobrei, naquele dia chuvoso, era a certa?... Será que o que tenho (bom ou ruim) realmente mereço?...
Queria ter uma bola de cristal que não se quebrasse quando a idade da razão quisesse acabar com minhas fantasias assim como fez com o sapato da Cinderela. Engraçado, gostava tanto dela! e hoje já não me importo com suas perdas e estilhaços.

É isso, os anos vão passando, eu vou mudando, e não há outro jeito. A vida atordoa-me à todo momento e cada vez mais. Tudo parece ser mais complicado. Meus desejos já não são tão simples como antes. Não desfruto do sossego de uma noite sem televisão e de uma hora sem confusão, nem consigo olhar meu reflexos sem refletir palavras aguçadoras de meus infindáveis autos (auto-interpretação, auto-investigação, auto-avaliação...). Lembro-me de que, pequenina, eu queria tanta coisa inocente, tantos desejos fáceis e um bando de bobagens tais qual meu desejo de crescer. Queria ser grande e poder responder aquele meu leque imenso de perguntas arremessadas à rajadas de vozes. Queria abanar-me com a brisa da sabedoria ventada pela maturidade. Ser Adulta era minha ilha da fantasia, meu oásis, meu banquete de Deusa, minha fuga distante, minha carta de alforria. Hoje vejo que não é bem assim. O que eu queria, na verdade, era bem mais simples do que ser maior, inflar os peitos, virar mocinha e mostrar que poderia ser mais do que uma ginasial. Queria mesmo é ser da quinta série!!!






O Lado Quente Do Ser



Composição: Marina Lima/Antônio Cícero

Eu gosto de ser mulher
Sonhar arder de amor
Desde que sou uma menina
De ser feliz e sofrer
Com quem eu faça calor
Esse querer me ilumina
E eu não quero amor
Nada de menos
Dispense os jogos desses mais ou menos
Prá que pequenos vícios
Se o amor são fogos que se acendem
Sem artifícios
Eu já quis ser bailarina
São coisas que eu não esqueço
E continuo ainda a sê-las
Minha vida me alucina
É como um filme que faço
Mas faço melhor ainda
Do que as estrelas
Então eu digo amor
Chegue mais perto
E prove ao certo qual é o meu sabor
Ouça meu peito agora
Venha compor uma trilha sonora
Prá o amor
Eu gosto de ser mulher
Que mostra mais o que sente
O lado quente do ser
E canta mais docemente


"De llorar a reír hay sólo un paso,
un paso nada más, sólo un suspiro"
Antonia Álvarez

Quando choro viro ilha
Viro vento que vira a direção da vela
Viro flanela velha
Viro todas as emoções
Reviro-me em todas as direções
Viro pranto
Fungando, desviro o pano branco
Viro poeta em papel rasgado
Viro lenço molhado
Bordado pela borda de meus continentes
Náufraga, úmida e costeira
Permaneço perdida, atolada, na calçada de minha tristeza
Chafurdada em desejos que não ousam desafiar
O lamaçal de meu despavimento


...ADmiração...

"Ele é o meu homem
Me deu seu nome
Quando dele me tornei mulher
Ele me beija, me aperta,
Com carinho me desperta"


Quando ele arregaça a camisa, fiapo por fiapo; dobrando até o cotovelo, pedaço por pedaço. Me perco na masculinidade de seu ato enrolador, que me enlaça por todos os espaços. Prendendo-me na sua linha, pipa avoada arrastada e trovoada. Enquanto o mundo gira, ele anda corre, nada voa, percorre os extremos falando de tudo como se o mundo fosse só certezas.

Ah! Como gosto das certezas, como gosto de segurar-me na beleza de planar sem o peso das dúvidas, poder brindar a leveza de vê-lo dizer suas "convicções" em vários tons que alcançam o deleite de meu ouvido, enchendo-me com suas opiniões inovadoras, firmes e desdobradoras de todos meus origamis de horizontes verticais.... sem a menor direção... me fecham abrindo os caminhos com a chave de seus inúmeros encantos trazidos em buquês de novidades postos sobre o leque de conhecimento que escorrem de seus dedos ensinando-me com as mãos sobre minha vida em Braille como se procura novos pontos salientes.